Como Surgiu a Teologia Liberal
Aqui, exponho minha teoria sobre as origens da teologia liberal entre os cristãos, especialmente nos Estados Unidos. Apresento-a de forma mais detalhada e com exemplos em meu livro Against Liberal Theology (Zondervan) [Em português, Contra a Teologia Liberal {CPAD}].
Primeiramente, é claro, preciso definir "teologia liberal". Em sua essência, trata-se de uma teologia sem milagres ou qualquer elemento sobrenatural. Ela assumiu diversas formas ao longo dos últimos 200 anos, mas todas compartilham essa visão fundamentalmente naturalista [que só existe o que é material, negando o sobrenatural ou espiritual] da realidade.
Para uma abordagem mais completa sobre a teologia liberal, leia Against Liberal Theology [Contra a Teologia Liberal].
Então, como surgiu a teologia liberal? O que a originou?
Pelo menos aqui nos Estados Unidos, o movimento unitarista [o unitarismo nega que Jesus é Deus, afirmando que só existe uma pessoa divina, diferente do trinitarianismo, que afirma que a Divindade consiste de três pessoas {Pai, Filho e Espírito Santo}, com uma única essência divina] (mais tarde unitarista-universalista) surgiu especialmente na Nova Inglaterra [região do Nordeste dos Estados Unidos composta por seis estados], nos primeiros anos do século XIX. Muitas igrejas congregacionais e outras denominações protestantes tornaram-se unitaristas. De modo geral, os unitaristas passaram a negar os milagres e qualquer aspecto sobrenatural. Começaram negando o calvinismo e a Trindade, mas avançaram para negar o pecado original, o inferno, a divindade de Cristo, etc. Eles foram os primeiros "cristãos" liberais. E, no início, eles certamente se consideravam cristãos, porém cristãos "esclarecidos" - adaptando-se ao novo espírito do Iluminismo [movimento intelectual e filosófico surgido entre o final do século XVII e início do século XVIII que enfatizava a razão no lugar da fé e de dogmas religiosos].
O movimento unitarista rapidamente atraía igrejas e cristãos individuais, afastando-os das (assim chamadas) denominações e igrejas protestantes tradicionais. Muitos congregacionais abastados e com alto nível de instrução, por exemplo, sentiram-se atraídos pelo unitarismo. Alguns importantes pastores protestantes migraram para o unitarismo.
Então, alguns líderes protestantes, especialmente na Nova Inglaterra, conceberam uma estratégia para impedir que esses membros abastados e instruídos migrassem para o unitarismo. Por que não simplesmente incorporar a teologia unitarista ao cristianismo protestante tradicional? Foi o que fizeram; e, nos dois séculos seguintes, travou-se uma disputa entre protestantes ortodoxos [que creem nas doutrinas principais da fé cristã] de diversas vertentes e protestantes liberais [que procuram revisar ou modificar doutrinas principais da fé cristã].
Teólogos que buscavam uma posição intermediária, como Horace Bushnell, tentaram encontrar um meio-termo (uma via media) entre a teologia conservadora e a liberal, mas essa abordagem não ganhou força. Ao estilo tipicamente americano, as pessoas sentiam-se atraídas pelos extremos de ambos os lados do espectro teológico. O fundamentalismo surgiu como reação à teologia liberal, liderado inicialmente por expoentes da Escola de Princeton do Protestantismo Ortodoxo (Hodge, Warfield e Machen). Posteriormente, os teólogos liberais deslocaram-se ainda mais para a "esquerda", rumo a um "modernismo" pleno, que negava o nascimento virginal, a ressurreição corporal de Cristo, a divindade ontológica [pessoal] de Cristo, a expiação substitutiva, a segunda vinda, entre outros pontos.
De todo modo, a teologia liberal nasceu nos Estados Unidos como uma resposta ao apelo do unitarismo. Sua adoção por teólogos e pastores de denominações protestantes tradicionais - inicialmente, em sua maioria, congregacionais, presbiterianos e metodistas - travou o crescimento do unitarianismo. Afinal, por que mudar de denominação ou de igreja se a sua própria igreja ensinava e pregava as mesmas coisas (que os unitaristas)? Por algum tempo, isso representou um enorme sucesso para as denominações e igrejas protestantes tradicionais. Contudo, a partir de meados do século XX, elas começaram a entrar em declínio, à medida que um número crescente de pessoas passou a considerar que a mensagem dessas igrejas mal podia ser chamada de cristã, não diferindo muito daquelas propagadas por organizações comunitárias idôneas, porém não religiosas (como o Rotary [uma organização cívica, comunitária e não religiosa que promove serviços comunitários, padrões éticos profissionais projetos humanitários e afins], por exemplo).
Bem, essa é a minha teoria sobre o porquê e o como a teologia liberal surgiu e ganhou força nos Estados Unidos. É claro que ela já estava surgindo na Alemanha e na Inglaterra, e provavelmente por motivos diferentes, visto que o unitarismo nunca chegou a representar uma ameaça real às denominações tradicionais (igrejas estatais nesses países [na Alemanha havia igrejas estatais em cada região até o início do século XX e na Inglaterra ainda há a igreja oficial do país chamada Igreja da Inglaterra, que fora da Inglaterra é chamada de Igreja Anglicana ou Igreja Episcopal).
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