Afiando a Navalha de Ockham
Ouço ou leio frequentemente sobre a Navalha de Ockham (às vezes grafada como Navalha de Occam) em programas de televisão, filmes, documentários e livros. Na maioria das vezes, o conceito é empregado de forma equivocada ou até mesmo abusiva. As pessoas geralmente o interpretam mal, e mesmo filósofos e cientistas, que deveriam compreender melhor o assunto, frequentemente fazem mau uso dele.
A versão popular diz que a Navalha de Ockham significa que a explicação mais simples é sempre a melhor. Diz-se que ela é um pilar da ciência moderna.
Guilherme de Ockham foi um frade e teólogo católico romano que viveu na Europa durante os séculos XIII e XIV. Ele nasceu na Inglaterra, mas viajou por toda a Europa. Por rejeitar a autoridade absoluta do papa sobre todos os governantes, inclusive sobre os imperadores, tornou-se alvo da Inquisição [tribunal eclesiástico promovido pela Igreja Católica Romana na Idade Média que investigava, julgava e punia crimes contra a fé católica romana considerados como heresias]. Ele encontrou segurança e refúgio em Munique, na Alemanha, numa época em que o monarca da Baviera [região da Alemanha] concordava com suas ideias. Faleceu lá, provavelmente vítima da peste. Morei em Munique e não encontrei nenhum monumento ou túmulo em sua homenagem. A Igreja Católica Romana geralmente o considera um herege.
Uma observação interessante: no filme O Nome da Rosa, Sean Connery interpreta o papel principal de Guilherme de Baskerville, que é uma combinação de Sherlock Holmes e Guilherme de Ockham.
Voltando à sua "navalha".
O que Ockham queria dizer com sua "navalha", um termo atribuído mais tarde e por outras pessoas, é que a melhor explicação para qualquer evento é aquela que exige o menor número de suposições.
Mas há um problema nisso. Como sabemos hoje, na pós-modernidade [período atual em que a verdade absoluta é contestada afirmando que há várias intepretações locais com suas "verdades"], os pressupostos são cruciais, porém altamente discutíveis. Um pressuposto pode ser fundamental mesmo que a maioria dos especialistas a rejeite!
O princípio (ou navalha) de Ockham visava eliminar explicações sobrenaturais em questões físicas. Em outras palavras, se o movimento de um planeta ou estrela pode ser explicado por leis naturais, não há necessidade de recorrer a causas sobrenaturais ou espirituais para explicá-lo. De fato, não se deve recorrer a elas.
Quase todos concordam com esse princípio em questões estritamente materiais e físicas. Pelo menos na ciência moderna, quase todos concordam com ele. Mas será que Ockham pretendia que sua navalha fosse usada para eliminar a metafísica [que investiga a realidade para além do mundo físico, tratando de questões como Deus, a alma, a existência, a causalidade e a natureza última de todas as coisas]? Alguns dizem que sim. Eu duvido seriamente disso. Ele era um frade franciscano fiel!
Para evitar que Deus fosse banido de toda explicação, muitos cristãos posteriores a Ockham passaram a falar em causas primárias e secundárias. Isso não significa que a distinção fosse nova; quer dizer apenas que ela adquiriu um novo propósito e valor.
Muitos eventos possuem tanto uma causa primária quanto uma secundária. A ciência moderna concentra-se apenas nas causas secundárias, reduzindo a causalidade primária à secundária. E isso funciona "no laboratório" ou "em campo", por assim dizer. Não esperamos, nem mesmo queremos, que cientistas, na qualidade de cientistas, recorram a causas primárias sobrenaturais ou espirituais ao explicar eventos. Contudo, isso não significa que os eventos não possam ter causas primárias importantes para uma explicação completa do que acontece.
Pense em um acidente de carro. Uma das causas pode ser a pista escorregadia. Mas e se um dos motoristas estivesse embriagado? Qual é a causa real do acidente? Alguém poderia afirmar que a explicação verdadeira é a mais simples? Ou aquela que exige o menor número de suposições? Poder-se-ia facilmente presumir que, como a pista estava escorregadia, essa foi a causa primária. Ou, então, presumir facilmente que a embriaguez de um dos motoristas foi a causa primária.
Muitos eventos têm mais de uma causa ou explicação. É seguro e correto descartar todas as causas e explicações, exceto as materiais e físicas?
No caso de um acidente de carro, os familiares do motorista embriagado podem saber que ele tinha pensamento suicidas. Será que ele dirigiu embriagado em pistas escorregadias com a intenção de morrer? Se for esse o caso, e talvez apenas a família saiba disso, poderia haver uma explicação não científica necessária para compreender plenamente o evento? A polícia provavelmente não investigaria causas não materiais ou não físicas, caso existissem; no entanto, poderia haver uma (ou mais de uma).
Assim, a teologia não viola necessariamente a Navalha de Ockham ao pressupor que Deus desempenha um papel causal em muitos eventos. E é altamente improvável que o próprio Ockham discordasse disso! É apenas o uso indevido da Navalha de Ockham por naturalistas (pessoas que acreditam que a natureza é tudo o que existe) que classifica como superstição qualquer crença em causas e explicações espirituais ou sobrenaturais.
Por outro lado, no laboratório científico ou em campo, onde alguns cientistas atuam, o recurso a causas e explicações sobrenaturais é corretamente descartado. Quando nenhuma causa natural é encontrada, os cientistas devem, NA QUALIDADE DE CIENTISTAS, simplesmente admitir que não sabem.
Contudo, não devem descartar todas as causas e explicações espirituais e sobrenaturais só porque estas não fazem parte da sua área de especialização ou domínio, por assim dizer. Eles podem até acreditar em causas sobrenaturais e espirituais. Mas não devem usá-las nas suas pesquisas científicas, pelo menos não como explicação definitiva ou totalmente fundamentada.
(Sim, alguns pesquisadores científicos afirmaram que a oração desempenha um papel na cura, mas isso nunca deve se tornar a explicação ou tratamento científico para a cura ou doença.)
________________________________
Tradução: Marlon Marques
P.S.: Tudo o que está entre colchetes corresponde a acréscimos do tradutor, feitos com o objetivo de facilitar a compreensão do texto por leitores que não estão familiarizados com a terminologia e as expressões teológicas.
Comentários
Postar um comentário