O que é a “Imagem de Deus” no Homem?

Tenho lido um livro relativamente recente sobre o significado do conceito de “imagem de Deus” ("Imago Dei") na teologia cristã. O título é Dignity and Destiny: Humanity in the Image of God [Dignidade e Destino: Humanidade na Imagem de Deus - sem tradução para o português]; o autor é o teólogo John F. Kilner. A obra foi publicada pela [editora] Eerdmans em 2015. Portanto, sim, cheguei a essa obra com certo atraso.

O livro de Kilner tem 402 páginas, incluindo a bibliografia e o índice, sendo 330 páginas de texto propriamente dito. É, portanto, uma obra volumosa e extremamente detalhada. Essa é uma maneira gentil de dizer, talvez, que é prolixa. Além disso, alguns diriam que é controversa, na medida em que tenta derrubar todas as ideias teológicas cristãs tradicionais sobre a imagem de Deus no “homem” (nos seres humanos).

Aqui está a “essência” do livro: “Ser à imagem e semelhança de Deus envolve a conexão da humanidade com Deus [...] Também tem a ver com o reflexo de Deus - com a intenção de Deus de que a humanidade seja a ‘coroa da glória’ da criação, refletindo certos aspectos de quem Deus é e do que Deus faz.” (p. 39)

Kilner rejeita as ideias tradicionais de que a imagem de Deus é uma condição na qual algumas pessoas refletem Deus mais ou melhor do que outras. Para ele, a imagem de Deus é a intenção divina, moldada por Cristo, de que todos (todo ser humano) se conectem com Deus e O reflitam. Para ele, a imagem de Deus não pode mudar; ela não é mais forte, melhor ou mais perfeita em algumas pessoas do que em outras. Isso é crucial para todo o seu projeto: desconstruir as ideias tradicionais de que, de uma forma ou de outra, algumas pessoas estão mais à imagem de Deus do que outras. Ele vê todos os conceitos, tradicionais e contemporâneos, de imagem de Deus como algo que pode levar à ideia de que algumas pessoas são mais valiosas do que outras.

Kilner admite, assim como a maioria dos estudiosos bíblicos e teólogos, que a Bíblia nunca define explicitamente a imago Dei, a imagem de Deus, no ser humano. Ela a menciona muitas vezes, mas a única “imagem” relativamente clara é Jesus Cristo. Isso leva Kilner a sugerir que comecemos a descrever a imagem de Deus a partir daí, com Cristo. Cristo é a imagem de Deus. Portanto, a imagem de Deus não pode ser danificada pelo pecado. As pessoas são danificadas pelo pecado, mas não a imagem de Deus. Para o restante de nós, que não somos Cristo, a imagem de Deus é a intenção divina para nós, a qual estabelece uma conexão com Deus e um reflexo de Deus. No entanto, para o restante de nós que não somos Cristo, a imagem de Deus “em nós” é escatológica [ou seja, será total em nós no futuro, no Reino de Deus concretizado em sua plenitude].

Por que a proposta de Kilner é importante? Bem, em termos simples, porque ela derruba (ou afirma derrubar) séculos, até mesmo milênios, de explicações teológicas cristãs sobre a imagem de Deus. No entanto, como ele aponta, esse longo empreendimento resultou apenas em uma grande quantidade de divergências teológicas. O conceito misterioso de imago Dei tem sido, e continua sendo, matéria-prima para inúmeras teses de doutorado e livros.

Se você tem interesse em um livro mais simples e de leitura mais fácil sobre o conceito de imagem de Deus, adquira um exemplar da excelente obra de David Cairns, The Image of God in Man [A Imagem de Deus no Homem - sem tradução para o português] (1973). Cairns foi um teólogo escocês que estudou com Emil Brunner na Suíça.

A verdadeira razão pela qual isso importa, porém, é que os cristãos há muito afirmam que o ÚNICO motivo pelo qual os seres humanos possuem valor, dignidade e mérito infinitos é o fato de serem, ou sermos, criados à imagem e semelhança de Deus. Então, o que é isso exatamente? E o que o pecado fez com isso? Tanto Cairns quanto Kilner exploram essas questões e propõem respostas.

Eu ensino que não sabemos exatamente o que é a imago Dei, exceto que ela representa nossa conexão humana com Deus e o reflexo d'Ele em nós. Nesse ponto, concordo plenamente com Kilner. No entanto, acredito que essa conexão e esse reflexo já existem em cada ser humano; é simplesmente o que nos torna mais semelhantes a Deus do que aos animais, abrangendo diversos aspectos do que significa ser humano.

Há muitos anos, adoto a distinção feita pelo Pai da Igreja Irineu e pelo teólogo do século XX [Emil] Brunner entre dois aspectos da imago Dei (imagem de Deus): um que não é corrompido pelo pecado e outro que o é. Aqui, tratarei apenas da perspectiva de Brunner. Brunner postulou a existência de uma "imagem formal" e de uma "imagem material" (os termos em si mesmos não são essenciais). A imagem formal de Deus é a nossa capacidade humana de ouvir e de responder a Deus, possibilitando assim um relacionamento com Ele; fomos criados para isso. A imagem material consiste, de fato, em manter um relacionamento correto com Deus, em ter comunhão e intimidade com Ele. A imagem formal não pode ser perdida nem corrompida; já a imagem material é danificada pela "Queda", de modo que, por natureza e sem a graça, não desfrutamos de comunhão e intimidade com Deus. Contudo, segundo Brunner, todo ser humano possui valor e dignidade infinitos justamente por possuir a imagem formal de Deus.

Kilner rejeita a visão de Brunner, assim como rejeita tantos outros conceitos, praticamente todos, exceto o seu próprio, sobre a imagem de Deus (embora admita que alguns teólogos tenham antecipado, ainda que não chegado exatamente, a sua perspectiva).

Um problema que vejo na abordagem de Kilner, na medida em que a compreendo, é que ela parece enfraquecer a ideia de que todos os seres humanos estão, de fato, "na" imagem de Deus aqui e agora. Sim, todos nós fomos destinados a refletir a imagem de Deus, mas, para ele, essa imagem parece assemelhar-se a uma forma platônica [como algo ideal, mas não ainda real] . Ela representa a verdade sobre nós, em certo sentido, mas permanece, por ora, camuflada. Não me fica claro como a visão dele difere, de fato e substancialmente, da de Brunner. A diferença reside, contudo, no fato de ele tratar a imago Dei como uma intenção divina, e não como um fato ontológico [ligado à própria pessoa] já presente e constante em todo ser humano.

Acredito que buscar uma definição e uma descrição claras da imagem de Deus seja inútil. A Bíblia jamais a define, e todas as tentativas de defini-la envolvem certo grau de especulação. Qual das inúmeras perspectivas apresenta menos problemas e o melhor potencial para realizar as duas coisas? A perspectiva de Brunner. Ela explica como a imago Dei já está sempre "presente" em cada ser humano e como ela é danificada pelo pecado. Se Kilner estiver certo, ela [a imagem de Deus] não sofre qualquer dano em decorrência do pecado.

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Tradução: Marlon Marques

P.S.: Tudo o que está entre colchetes corresponde a acréscimos do tradutor, feitos com o objetivo de facilitar a compreensão do texto por leitores que não estão familiarizados com a terminologia e as expressões teológicas.

Link do artigo original em inglês

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