A Principal Diferença entre Evangélicos Conservadores e Pós-Conservadores

    Há alguns anos, pensei ter cunhado um novo rótulo para um determinado grupo de teólogos, pastores e estudantes evangélicos, bem como de leigos evangélicos reflexivos: "pós-conservador". Cheguei a escrever um artigo sobre esse rótulo e categoria, publicado na revista The Christian Century. Depois, escrevi um livro a respeito, intitulado Reformed and Always Reforming: The Postconservative Approach to Evangelical Theology [Reformada e sempre reformando: a abordagem pós-conservadora da teologia evangélica] (Baker). Mais tarde, descobri que outras pessoas já haviam utilizado o termo "pós-conservador" antes de mim. Encontrei apenas dois exemplos, mas pode haver outros.

    Mais tarde, Jack Rogers, teólogo do Seminário Fuller, escreveu um livro que exerceu grande influência sobre mim — na época em que eu estava deixando o fundamentalismo para ingressar no universo evangélico mais amplo e diversificado. O título da obra é Confessions of a Conservative Evangelical [Confissões de um Evangélico Conservador]. Depois de escrever sobre a "teologia evangélica pós-conservadora", comecei a questionar o título, pois ele não condizia realmente com o conteúdo e a mensagem do livro. Entrei em contato com o autor e ele confirmou a minha suspeita: o título original pretendido por ele era Confessions of a Postconservative Evangelical [Confissões de um Evangélico Conservador]. Aparentemente, a editora suprimiu o prefixo "Post" [pós ] de "Postconservative" [pós-conservador], tornando o título e a narrativa (da jornada teológica de Jack) inconsistentes.

    Descobri também que Clark Pinnock havia utilizado o termo "pós-conservador" em seu livro Tracking the Maze [Rastreando o Labirinto]. No entanto, ele o empregava de maneira diferente da minha. Ainda assim, sempre considerei Clark um exemplo do que defino como "evangélico pós-conservador".

    Ao refletir agora sobre o que eu pretendia dizer com a expressão "teologia evangélica pós-conservadora", concluo que eu tinha em mente uma ideia central: a de que nem mesmo a teologia evangélica está jamais concluída, e que Deus sempre tem mais luz para fazer brilhar a partir de Sua Palavra. (Essa frase é atribuída ao pastor separatista John Robinson, em um sermão que ele pregou aos "peregrinos" quando estes partiam rumo ao Novo Mundo [o continente americano].)

    Anos atrás, li um artigo na revista Christianity Today, escrito pelo teólogo evangélico David Wells e intitulado "A Teologia Robusta e Persistente de Charles Hodge". No artigo, Wells afirmava que nenhuma teologia evangélica havia superado a de Hodge no século decorrido desde a publicação de sua Teologia Sistemática, na década de 1870. A conclusão que tirei do artigo foi a de que nenhuma teologia evangélica jamais o faria.

    Ao observar a teologia e os teólogos evangélicos ao longo dos anos, descobri uma profunda divisão  entre dois tipos e dois grupos identificados com cada um deles. Um desses tipos, e os teólogos a ele associados, sustenta que a tarefa construtiva da teologia está encerrada - para sempre. Para eles, as únicas tarefas da teologia consistem em reafirmar o que foi construído por teólogos como Hodge e em criticar as alternativas.

    O outro tipo de teologia evangélica, e os teólogos a ela associados, acredita que a tarefa construtiva da teologia nunca termina, pois Deus sempre tem uma nova luz para fazer surgir de Sua Palavra e porque a igreja e a teologia devem ser "reformadas e estar sempre se reformando".

    Meu termo "pós-conservador" foi amplamente mal-interpretado, como se implicasse, de alguma forma, um afastamento da Bíblia e da tradição ao utilizar a cultura contemporânea como fonte e norma em pé de igualdade com, ou até mesmo superior, a própria Bíblia. Essa nunca foi a minha intenção, e jamais disse ou dei a entender tal coisa.

    Meu argumento era que nenhum sistema teológico é intocável.

    Quando eu estava no seminário, um dos meus queridos professores, Al Glenn (que descanse em paz), ensinou-me este poema de Alfred Lord Tennyson: "Nossos pequenos sistemas têm o seu tempo; têm o seu tempo e deixam de existir. Não passam de luzes fragmentadas de Ti, e Tu, ó Deus, és mais do que eles".

    Mas! Mesmo para os teólogos evangélicos pós-conservadores, a fonte e a norma da teologia construtiva é a Bíblia, não a cultura contemporânea. A cultura contemporânea é o contexto no qual falamos, e devemos expressar a verdade de uma maneira que possa ser compreendida. Contudo, a cultura contemporânea não é fonte nem norma para a teologia construtiva.

    Dois exemplos de teologia evangélica pós-conservadora vêm à mente: a visão da "abertura de Deus" de Clark Pinnock (e outros) e a "nova interpretação de Paulo" de N. T. Wright. Ambos se afastam da tradição, mas apenas porque acreditam que uma interpretação das Escrituras que seja, ao mesmo tempo, nova e fiel, assim o exige.

    Creio que a teologia evangélica conservadora que consagra um sistema de dogmas, como o de Hodge, fecha-se a qualquer "nova luz" e rejeita a tarefa construtiva da teologia, viola completamente o princípio das Escrituras.

    Devo dizer que fiquei encantado quando Tom Wright afirmou, em seu livro Justification [Justificação], que ele é um dos meus "evangélicos pós-conservadores". Richard Bauckham me disse o mesmo pessoalmente. Ambos são exemplos do que quero dizer com "teologia evangélica pós-conservadora". Não citarei outros nomes aqui, pois eles não me disseram que adotam esse rótulo. Mas há muitos outros.


Tradução: Marlon Marques


Link do artigo original em inglês.

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